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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

EDITORIAL: O Vício do Poder.

Todo vício é prejudicial, nocivo. Ser viciado em drogas (lícitas e ilícitas), em comida, em sexo, em jogo... Enfim, tudo que caracteriza vício ou compulsão é considerado doença e tem que ser encarado com toda atenção. Tem que ser tratado. O vício não só é nocivo para o viciado, como também para aqueles que o rodeiam.  Todos adoecem.
Nos últimos dias, meses, por assim dizer, tenho observado outro tipo de vício, que talvez ainda não conste dos compêndios de medicina, nem foi noticiado na mídia especializada: O vício no poder. Observo na nossa cidade, um número considerável de indivíduos que são afligidos por esse mal. Encontram-se em crise de profunda abstinência. O inconformismo é notadamente expresso por atitudes, palavras, gestos, textos nas redes sociais. Ao serem privados do poder, encontram-se literalmente doentes. Fazem de tudo para ter mais uma dose, mínima que seja. E não encontrando a droga, o poder tão desejado, que se lhes escapou entre os dedos (e cabeças) debilitados pelo uso constante, tentam substituir um vício, por outro ainda pior: a maledicência.
Esses cidadãos, disfarçados de “vigilantes” e preocupados oposicionistas, vivem à cata de notícias fantasiosas e falhas na administração que agora detém os destinos do município, não para o debate em busca de soluções aos erros. Não procuram apontar as falhas e apresentar, ou pelo menos propor soluções. O objetivo em “estar de olho” é puramente pra torcer pelo pior. É uma tentativa desesperada de provar que eu “eu era melhor...”, ou ainda “no meu tempo era diferente...”. Ficam nas sombras, nas marquises e viadutos da história, numa inércia doentia, ansiando por mais uma dose da droga que por tantos anos injetaram nas veias: O poder.
Lembro claramente que até poucos meses, talvez um ano, eu e outros que compartilhávamos os mesmos desejos e linhas de pensamento, éramos oposição. Fazíamos parte de um grupo oposicionista que debatia, discutia, apontava erros e principalmente soluções. Pregávamos que era necessário mudar. Fazíamos questão de atacar atitudes erradas, nunca pessoas. Entretanto, sempre fizemos isso as claras, abertamente. Não tínhamos o recurso nem o artifício de nos ocultar nas sombras. Sempre procuramos, enquanto grupo de oposição, mostrar o erro, e principalmente, como conserta-lo. Sempre a luz do dia.
Vejo pessoas que mal tinham tempo de atender um telefonema de um munícipe, hoje dedicar horas de seu dia para estar nas redes sociais. Sempre incitando uns poucos que ainda resistem, que ainda sonham em mais uma vez embriagar-se no vício do poder a pouco perdido, a travarem uma luta que não é deles. Armam esses poucos desavisados com notícias fantasiosas. Iludem. Mandam esses poucos soldados, como peões dos jogos de xadrez, a se sacrificarem por eles. Incentivam esses “fieis” e “iludidos” seguidores a mentir, caluniar, propagar mentiras. Vasculham os meios de comunicação atrás de cada erro milimétrico da administração. Erros pontuais são transformados em material de vasto e amplo debate.
Mas fazem isso de maneira aberta? Não.
Operam das sombras. Escondem-se. Falta-lhes a coragem e a determinação de combater em campo aberto. Com a fragilidade de seus argumentos, preferem que outros falem por eles. Esperam que seus poucos soldados, cansados e desiludidos, estropiados por com travarem uma batalha ingrata, lutem, falem, combatam por eles. Acreditam que erros de um início de gestão, poderão encobrir quase duas décadas de desmandos e má administração. Não tem cerimônia em enganar e mentir. A eles, o bem estar das pessoas está em segundo plano. Esperam, como todo viciado, em seus delírios da forçada abstinência, que alguém lhes ofereça mais uma dose.
Apenas mais uma.

Josmari de Sales Costa é Funcionário Público Estadual, Graduado em Marketing pela UNP – Universidade Potiguar.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

EDITORIAL: O que falar de um amigo (e das amizades verdadeiras).

Nesses tempos de campanha eleitoral, muitas amizades vão embora. Desfazem-se. De repente, nem eram amizades tão verdadeiras. Infelizmente, encontrar amizades reais nos dias de hoje é cada vez mais difícil. Elas se perdem na busca insana pelos interesses pessoais, pela troca de favores e pela falta de verdade nas relações entre os que se dizem amigos.
Enfim, nossa conversa de hoje, apesar da breve introdução, não é para falar sobre a falta de amizade, mas para enaltecer as que sobrevivem, e falar de um amigo em particular (e peço aqui as devidas desculpas, pois o assunto é um pouco, digamos, “pessoal”). Isso, porque quando falo, ou penso em amizade, e que me perdoem os meus outros amigos, companheiros e colegas, sempre me vem à mente o nome, ou melhor, o jeito dele: Vanderley.
Conheci Vanderley já se vão alguns anos, não me recordo bem como. Conhecer, no sentido de contato mais aproximado, visto que somos da mesma cidade, o que ocasiona todo mundo conhecer todo mundo. E desde que me lembro, é uma das poucas pessoas que o comportamento não muda com o passar do tempo.
Na época, ele, militar da ativa, Fuzileiro Naval, era (e sempre foi), apesar de extremamente organizado, pontual e reto, como acontece com a grande maioria dos militares, um sujeito de sorriso fácil. É fácil ver o Vanderley sorrir. Essa característica sempre retorna ao falar ou lembrar dele. Sempre disposto a ajudar, sempre o primeiro a se levantar, sempre o primeiro a auxiliar. Disposto e sempre procurando o que fazer (ou procurando “faxina”, como se diz na marinha), apesar da sua conformação física não suportar grandes esforços.
Nos tornamos amigos de forma rápida. Durante todos esses anos, apesar de ser eu, uma pessoa extremamente difícil em se tratando de convivência, nunca brigamos, ou discutimos mais seriamente. Às vezes, uma discordância de opinião, aqui, uma divergência ali, mas nunca nada sério. Quando era (e sempre era) necessária uma “chamada de atenção” ou um aconselhamento, estes sempre vinham com as palavras brandas, de modo que não arranhasse mais o que já estava, muitas vezes, ferido. Durante esse tempo, o vi poucas vezes irritado. E quando acontecia, durava pouco.
Acompanhei algumas de suas promoções enquanto militar. Chegou cedo ao posto de Suboficial (o posto mais alto a ser alcançado por um praça, diga-se de passagem). Apesar disso, ao longo de sua ascensão, nunca se utilizou de suas patentes militares como símbolo de status. Nunca se apresentou colocando a patente na frente do nome. Acompanhei também quando recebeu o título de Bacharel em Direito. Sempre encarou os desafios de modo a sempre termina-los. E sempre com êxito.
Nunca esqueceu nossa cidade. Durante os tantos anos que viveu fora, sempre esteve, de uma forma ou de outra, presente. Que o digam os tantos conterrâneos nossos que foram se aventurar fora, e que, ao chegarem lá, sempre (ou quase sempre) eram recepcionados por ele. Todos os anos, quando o trabalho permitia, sempre dava um jeito de vir. Cada vez que vinha, a vontade ficar mais um pouco, era sempre maior. Ir embora era a cana dano mais e mais difícil. 
Vanderley perdeu o pai, Seu Abílio, cedo. Dessa fase da sua vida eu sei pouco. Mas, acompanhei a dura e ingrata jornada da perda de sua mãe, Dona Teresa. Foi uma fase difícil. Porém, nem mesmo essa fase difícil conseguiu alterar nenhum traço de sua personalidade. Nem os duros golpes da vida alteraram sua maneira de ser e de agir.
Enfim, quando se trata de amigo, e, se tiver eu que citar um exemplo de amigo, falo nele. Quando me perguntam sobre amizade, é o nome que escapa da boca:
Vanderley.
Ultimamente, meu amigo resolveu se dedicar a política. Segundo ele, uma forma de ajudar mais a quem precisa, a quem necessita. Uma vez, ele me disse que gostaria de ver nossa cidade, nosso município, mais desenvolvido, menos injusto, melhor administrado. Muitas vezes o vi criticar a forma de administrar, a forma de fazer política. Tenho toda a certeza, que foi isso que o levou a esse lado. O lado mais difícil. O lado de “ser político”.
Precisar, creio que ele não precisava. Hoje aposentado, após os trinta anos a serviço da nação, poderia desfrutar do seu “ócio com dignidade”, visto que seus recursos e justos rendimentos, condizentes com sua vida austera e simples, seriam mais que suficientes. Bacharel em Direito, poderia dedicar-se a exercer a advocacia, quem sabe a magistratura (competência não lhe falta). Acredito que o desejo de ajudar aos outros tomou uma nova dimensão. Agora, ele quer ir onde dá para ajudar mais, de forma mais efetiva. Um lugar onde sua voz será ouvida: O Legislativo Municipal.
Hoje, Vanderley enfrenta uma campanha de Vereador. Não sei se conseguirá se eleger, nem qual será a sua votação. As vezes, o resultado das urnas não é proporcional ao tamanho do serviço prestado. Mas, de uma coisa tenho certeza: em cada cantinho do município, tem alguém que se lembra de Vanderley. Em cada canto da nossa cidade, tem alguém que, direta ou indiretamente, foi auxiliado por ele. A gratidão dessas pessoas, o olhar, segundo ele mesmo diz, a satisfação em ajudar, tem mais valor do que qualquer voto, do que qualquer resultado de eleição. Vanderley é uma das poucas pessoas que ajuda sem esperar retribuição. Digo isso por experiência própria, não porque somos amigos. É a verdade.
Acredito, que a gratidão das pessoas, a espontaneidade das pessoas, o sorriso das pessoas quando a gente fala no nome dele, é que, para ele, faz realmente alguma diferença. É o que realmente tem valor.
Nossa amizade é uma das coisas caras em minha vida. Seu desprendimento e paciência em aguentar seu amigo aqui (até nos momentos que nem eu me aguento), é exemplo para minha vida. Seu zelo pelas pessoas são atitudes que eu tento, com pouco sucesso, é verdade, imitar. Somos amigos, e só. É simples. Sem cobrança, sem troca de favores.
E é desse tipo de amizade que o mundo carece. É esse tipo de amizade que não se desfaz com o vento. É o tipo de amizade que nada (inclusive uma campanha política) consegue derrubar.
Obrigado pela sua amizade. Obrigado pela sua coragem em colocar o nome a disposição do julgamento popular, não para trabalhar pelos outros, isso você já vem fazendo a muito tempo, sem mandato. O mandato vai apenas ampliar a abrangência da sua atuação. Obrigado por acreditar que é possível fazer melhor, que é possível fazer diferente, que é possível estar a serviço do povo. Não como político.
Como um verdadeiro Amigo.


Josmari de Sales Costa é Funcionário Público Estadual, Graduado em Marketing pela UNP – Universidade Potiguar.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

EDITORIAL: Nem tudo está perdido

             
Nossa conversa hoje é um pouco diferente. É sobre uma experiência. Sobre como a simplicidade pode ser transformadora de opiniões. Sobre como pessoas podem e atitudes podem ser um diferencial positivo. É sobre como o serviço público pode voltar a ter qualidade.
Toda vez que se precisa de atendimento médico – hospitalar de emergência, a noite, na rede pública, é quase uma regra ser mal atendido, esperar horas em uma fila, encontrar um profissional mal humorado, com sono, esgotado das muitas horas de plantão. Quando se é atendido, geralmente falta o medicamento. Muitas vezes, saímos da unidade de saúde mais doentes do que quando chegamos.
                Na minha cidade, assim como talvez na sua, constantemente ouvimos relatos como esse. A precariedade dos serviços de saúde, o descaso dos gestores, a ingerência de quem está na linha de frente. Profissionais mal remunerados, sem condições de trabalho, sem material adequado, escalas de serviço apertadas, pintam um quadro sombrio. É quase proibido adoecer.
                Há cerca de dois anos, meu filho mais velho começou a sentir dores de cabeça, que iam e vinham, apareciam e desapareciam sem uma causa aparente. Procuramos o serviço médico da minha cidade. A peregrinação começou (e ainda é assim hoje) as quatro da manhã, quando fui pegar uma ficha. Espera, e mais espera, as fichas foram distribuídas as 07:00 da manhã. De posse da ficha, voltei para casa, peguei meu filho, e voltamos. Mais uma fila, mais uma espera, e quando finalmente fomos atendidos, o médico (notem bem, não era atendimento de urgência) que nos atendeu, um jovem rapaz de menos de trinta anos,  perguntou os dados, anotou numa ficha, e disse: Vou encaminhar seu filho a um especialista. Nem uma pergunta mais detalhada, nem uma auscultação, nem uma investigação. Nada. De cara fechada, preencheu uma requisição, passou um analgésico qualquer e fomos dispensados. De posse da requisição, fomos até a secretaria de saúde, solicitar a marcação da consulta com o especialista. Para encurtar o assunto, nesse mês que passou completaram dois anos que esse encaminhamento encontra-se por lá. Dois aniversários. Quem sabe agora, reta final de gestão, essa consulta seja marcada. Afinal, eleições e final de gestão são “milagrosos”... Mas, voltemos ao nosso assunto.
                Coincidentemente, após dois anos as dores de cabeça voltaram. Durante uma semana, iam, vinham, como da outra vez. Duas noites atrás, umas 23:00, as dores aumentaram a intensidade. Os analgésicos comuns não estavan mais resolvendo. Relutante, pois não sabia se havia médico na unidade de saúde, nos dirigimos com ele até lá. Chegamos, fomos atendidos pelo auxiliar. Preenchimento de fichas, verificação de pressão, perguntas de praxe (teve febre, vômito...). Após os procedimentos, disse: Agora, aguardem aí, que eu vou chamar a médica. No meu íntimo, já comecei a preparar psicologicamente. Deveria vir mais um médico sonolento, mal humorado porque foi retirado do seu descanso.
Nessa hora, percebi que nem tudo está perdido.
                Fomos atendidos por uma jovem médica, acredito que com a idade de vinte e poucos anos, expressão tranquila no rosto. Com calma, perguntou do que se tratava. Examinou, fez várias perguntas. Percebia-se que ela queria entender o caso. Respondeu a todas as nossas dúvidas, com calma e paciência, de uma forma didática, explicando, ouvindo o que falávamos. Prescreveu a medicação, que foi administrada pelo auxiliar. Conversou mais um pouco. Perguntou se queríamos uma requisição para um exame, apesar de dizer que não havia pressa para realiza-lo. Solícita, colocou-se a disposição, caso voltássemos a precisar. Tranquilizou-nos, disse que estava tudo bem, que não era caso para alarme. Depois disso, nos despedimos, e fomos embora.
                Ver o trabalho daquela jovem médica, a forma de atender, a educação e a paciência, e principalmente a simplicidade, sinceramente me devolveu um pouco de fé e de esperança num serviço de saúde qualidade. Graças a Deus, poucas vezes em minha vida precisamos de médico, ou de hospitais. Mas, não temos boas recordações da maioria dos atendimentos que precisamos. Ser atendido bem num serviço de emergência, as 23:00, não é uma experiência que se diga agradável. Mas essa, levando-se em conta as circunstancias, foi.
                A prioridade de qualquer gestor deveria ser, entre outras também importantes, a saúde. E isso começa com a seleção de bons profissionais. Um bom profissional, que passa segurança no atendimento, que é cordial no trato com o paciente, que explica, que ouve, que tranquiliza, é um artigo raro. Profissionais desse nível mostram que sua formação vai além da academia. Vai além dos livros. Vai além das teorias e técnicas aprendidas na faculdade de medicina. Mostra que sua formação é humanitária. Mostra que é possível um atendimento diferenciado, mesmo em serviços de urgência. Profissionais desse tipo deveriam ser remunerados regiamente. Profissionais desse nível deveriam ter todas as condições necessárias ao desenvolvimento do seu trabalho colocadas a sua disposição. Isso, infelizmente, não acontece no meu município, no meu São Bento do Trairi. Quando os gestores entenderem que os serviços de saúde são prestados por pessoas, e para pessoas, a saúde pública vai apresentar melhoras.
                Queria agradecer a essa profissional. Que continue dessa forma. Que os anos que virão na sua profissão não retirem dela essa característica. Que a sua prática na medicina seja sempre dessa forma. Fico grato doutora.
E com esperança no futuro.


Josmari de Sales Costa é Funcionário Público Graduado em Marketing pela UNP – Universidade Potiguar