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terça-feira, 2 de agosto de 2016

EDITORIAL: Nem tudo está perdido

             
Nossa conversa hoje é um pouco diferente. É sobre uma experiência. Sobre como a simplicidade pode ser transformadora de opiniões. Sobre como pessoas podem e atitudes podem ser um diferencial positivo. É sobre como o serviço público pode voltar a ter qualidade.
Toda vez que se precisa de atendimento médico – hospitalar de emergência, a noite, na rede pública, é quase uma regra ser mal atendido, esperar horas em uma fila, encontrar um profissional mal humorado, com sono, esgotado das muitas horas de plantão. Quando se é atendido, geralmente falta o medicamento. Muitas vezes, saímos da unidade de saúde mais doentes do que quando chegamos.
                Na minha cidade, assim como talvez na sua, constantemente ouvimos relatos como esse. A precariedade dos serviços de saúde, o descaso dos gestores, a ingerência de quem está na linha de frente. Profissionais mal remunerados, sem condições de trabalho, sem material adequado, escalas de serviço apertadas, pintam um quadro sombrio. É quase proibido adoecer.
                Há cerca de dois anos, meu filho mais velho começou a sentir dores de cabeça, que iam e vinham, apareciam e desapareciam sem uma causa aparente. Procuramos o serviço médico da minha cidade. A peregrinação começou (e ainda é assim hoje) as quatro da manhã, quando fui pegar uma ficha. Espera, e mais espera, as fichas foram distribuídas as 07:00 da manhã. De posse da ficha, voltei para casa, peguei meu filho, e voltamos. Mais uma fila, mais uma espera, e quando finalmente fomos atendidos, o médico (notem bem, não era atendimento de urgência) que nos atendeu, um jovem rapaz de menos de trinta anos,  perguntou os dados, anotou numa ficha, e disse: Vou encaminhar seu filho a um especialista. Nem uma pergunta mais detalhada, nem uma auscultação, nem uma investigação. Nada. De cara fechada, preencheu uma requisição, passou um analgésico qualquer e fomos dispensados. De posse da requisição, fomos até a secretaria de saúde, solicitar a marcação da consulta com o especialista. Para encurtar o assunto, nesse mês que passou completaram dois anos que esse encaminhamento encontra-se por lá. Dois aniversários. Quem sabe agora, reta final de gestão, essa consulta seja marcada. Afinal, eleições e final de gestão são “milagrosos”... Mas, voltemos ao nosso assunto.
                Coincidentemente, após dois anos as dores de cabeça voltaram. Durante uma semana, iam, vinham, como da outra vez. Duas noites atrás, umas 23:00, as dores aumentaram a intensidade. Os analgésicos comuns não estavan mais resolvendo. Relutante, pois não sabia se havia médico na unidade de saúde, nos dirigimos com ele até lá. Chegamos, fomos atendidos pelo auxiliar. Preenchimento de fichas, verificação de pressão, perguntas de praxe (teve febre, vômito...). Após os procedimentos, disse: Agora, aguardem aí, que eu vou chamar a médica. No meu íntimo, já comecei a preparar psicologicamente. Deveria vir mais um médico sonolento, mal humorado porque foi retirado do seu descanso.
Nessa hora, percebi que nem tudo está perdido.
                Fomos atendidos por uma jovem médica, acredito que com a idade de vinte e poucos anos, expressão tranquila no rosto. Com calma, perguntou do que se tratava. Examinou, fez várias perguntas. Percebia-se que ela queria entender o caso. Respondeu a todas as nossas dúvidas, com calma e paciência, de uma forma didática, explicando, ouvindo o que falávamos. Prescreveu a medicação, que foi administrada pelo auxiliar. Conversou mais um pouco. Perguntou se queríamos uma requisição para um exame, apesar de dizer que não havia pressa para realiza-lo. Solícita, colocou-se a disposição, caso voltássemos a precisar. Tranquilizou-nos, disse que estava tudo bem, que não era caso para alarme. Depois disso, nos despedimos, e fomos embora.
                Ver o trabalho daquela jovem médica, a forma de atender, a educação e a paciência, e principalmente a simplicidade, sinceramente me devolveu um pouco de fé e de esperança num serviço de saúde qualidade. Graças a Deus, poucas vezes em minha vida precisamos de médico, ou de hospitais. Mas, não temos boas recordações da maioria dos atendimentos que precisamos. Ser atendido bem num serviço de emergência, as 23:00, não é uma experiência que se diga agradável. Mas essa, levando-se em conta as circunstancias, foi.
                A prioridade de qualquer gestor deveria ser, entre outras também importantes, a saúde. E isso começa com a seleção de bons profissionais. Um bom profissional, que passa segurança no atendimento, que é cordial no trato com o paciente, que explica, que ouve, que tranquiliza, é um artigo raro. Profissionais desse nível mostram que sua formação vai além da academia. Vai além dos livros. Vai além das teorias e técnicas aprendidas na faculdade de medicina. Mostra que sua formação é humanitária. Mostra que é possível um atendimento diferenciado, mesmo em serviços de urgência. Profissionais desse tipo deveriam ser remunerados regiamente. Profissionais desse nível deveriam ter todas as condições necessárias ao desenvolvimento do seu trabalho colocadas a sua disposição. Isso, infelizmente, não acontece no meu município, no meu São Bento do Trairi. Quando os gestores entenderem que os serviços de saúde são prestados por pessoas, e para pessoas, a saúde pública vai apresentar melhoras.
                Queria agradecer a essa profissional. Que continue dessa forma. Que os anos que virão na sua profissão não retirem dela essa característica. Que a sua prática na medicina seja sempre dessa forma. Fico grato doutora.
E com esperança no futuro.


Josmari de Sales Costa é Funcionário Público Graduado em Marketing pela UNP – Universidade Potiguar


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